Conforto
Minhas necessidades materiais sempre foram muito baixas. Sempre me considerei um minimalista — não daqueles afetados, que têm pouco do melhor, mas sim uma pessoa de baixo consumo.
Nunca me perguntei as razões, mas recentemente o assunto apareceu na terapia como um problema.
Primeiro, a razão mais evidente: nasci em uma família pobre. Herdava as roupas do irmão mais velho, dormia em beliche, dividia o quarto com dois ou três irmãos, além do roupeiro e de tudo mais. Ter algo novo, pra mim, não era muito comum. Como segundo filho, em um lar conflituoso, cresci retraído e evitando as brigas. Aprendi cedo que minhas necessidades mais básicas — afetivas ou materiais — dificilmente seriam atendidas. Chorar não adiantava, então era mais seguro ficar quieto. O materialista da casa era o primogênito, o que gerava inúmeras discussões em um família pobre. Eu era o antagonista dos conflitos — e, portanto, da causa materialista do meu irmão.
Em segundo lugar, depois que saí da “casa da mãe”, sempre morei de modo provisório, quase como se estivesse acampado. Acho que, lá no fundo, sempre quis voltar para “terrinha”. Inconscientemente, sempre estive preparado para isso. Minhas roupas, por exemplo, permaneceram em uma mala grande por mais de uma década.
Na terapia, percebi a necessidade de mobiliar melhor o apartamento atual. A ideia é buscar conforto. Cresci sem conforto e, mesmo na vida adulta, continuei sem pensar nisso — mesmo em períodos de vacas gordas. Foi preciso terapia para que eu notasse.
Agora, estou me permitindo mais: comprei uma cômoda (uau!) e já tenho a maioria dos móveis considerados essenciais. Ainda resisto a ter muitas coisas: TV, micro-ondas e outras parafernálias. Vou com parcimônia, avaliando o que realmente gostaria de ter, materialmente.
Conclusão: a pobreza deixa marcas indeléveis.

