O Coroné
Escrito em Não-Me-Toque/RS. Qualquer semelhança, mera coinscidência (cof)
Naquele sertão seco, quem manda é o Coroné.
Forasteiro, matreiro, ligeiro, de olho no baú,
chegou naquelas paragens e logo cismô:
— Qual o dote da princesa do dotô?
Se o dote é miúdo, embaraça.
Na caatinga, Coroné não namora de graça.
A quantia era formosa — e o Coroné noivou.
E dizia: — Por cá stará meu novo amô!
Agora, o Coroné tem engenho.
Agora, o Coroné tem tratô.
Tem fazenda, voto, voz,
advogado jagunço e promotô.
E quem tem medo?
Ah, esse é o trabalhadô.
Quem planta é o trabalhadô,
Quem colhe é o Coroné.
Quem sua é o trabalhadô,
Quem fatura é o Coroné.
Na festa da padroeira, o Coroné é padrinho.
Na festa junina, faz fogueira e traz o milho.
Na procissão, o Coroné vai na frente.
No palanque, fala forte pra sua gente.
O Coroné gosta de plateia que aplauda.
Quem não bate palma, o Coroné manda batê.
O Coroné faz discurso, promessa, doação.
O Coroné aperta — e aperta mão.
Quando chega a seca, o Coroné doa cesta.
Quando chega a fartura, o Coroné faz a festa.
Quando chega a campanha, faz caravana.
Quando passa a eleição: pão, circo, bagana.
O Coroné dá esmola, mas diz: — Fiz por bem.
O Coroné faz a festa, mas cobra além.
Diz que é pai, é padrinho, é patrão, protetor —
e o povo, de joelhos, chama de salvador.
No jornal, só sai o que lhe agrada.
Na rádio, matraqueia e conta piada.
Na câmara, emplaca preposto e parente.
No paço, é Coroné simplesmente.
Na escola, não gosta de professor falante.
Na escola, não gosta de aluno pensante.
Na escola, não gosta de livro —
gosta de continência: positivo!
O Coroné não gosta de sindicato, greve, protesto.
Gosta de silêncio — silêncio é bom pro Coroné dormi.
O Coroné quer tudo, nega tudo.
O Coroné esbraveja: — Vagabundo!
Todo mundo conhece o Coroné.
Todo mundo tem respeito aparente.
Todo mundo fala mal por trás.
Todo mundo o teme na frente.
Mas quem fala mal do Coroné?
Quem? Se ele ajuda, se ele dá fé.
Quem vota nele? O mesmo trabalhadô,
que chora na venda, mas bate tambô.
“E agora, como termino isso aqui?! Não sei, mas vai lá…”
Mas nessa terra intocável, de poeira e puro pó,
já dizia o ditado: *nem tudo que cheira é flô*.
Pobre terra de coitados:
— Amém, Coroné, sim, Senhô!

